26 janeiro, 2026

Currículo Lattes: por onde começar?

 


Ao ingressar na universidade, muitos estudantes se deparam com termos que ainda parecem distantes da realidade acadêmica, como iniciação científica, extensão, editais e projetos institucionais. Em meio a esse novo universo, um nome passa a aparecer com frequência: o Currículo Lattes. Apesar de ser amplamente exigido em processos seletivos acadêmicos e institucionais, grande parte dos graduandos ainda não sabe exatamente o que é o Lattes, para que ele serve e, principalmente, quando deve ser criado.

O QUE É O CURRÍCULO LATTES?

O Currículo Lattes é a principal plataforma de registro da vida acadêmica no Brasil. Criado e mantido pelo CNPq, ele reúne informações sobre formação acadêmica, cursos, eventos, projetos, produções científicas e experiências de pesquisa e extensão.

Diferente de um currículo profissional tradicional, o Lattes é voltado especificamente para o meio acadêmico e científico. É por meio dele que universidades, programas de extensão, iniciação científica, pós-graduação e agências de fomento avaliam a trajetória dos estudantes e pesquisadores.

Ter um Currículo Lattes não é algo exclusivo de quem já está no mestrado ou doutorado. Pelo contrário: quanto mais cedo ele é criado e alimentado, mais organizada e consistente se torna a trajetória acadêmica ao longo do tempo.

QUAL A IMPORTÂNCIA DO CURRÍCULO LATTES?

O Currículo Lattes é importante porque ele funciona como uma espécie de “histórico acadêmico ampliado”. É nele que ficam registradas todas as experiências formativas que vão além da sala de aula.
Muitas seleções exigem o Lattes como critério de avaliação, como:
  • Bolsas de iniciação científica e extensão;
  • Projetos de pesquisa;
  • Programas de monitoria;
  • Processos seletivos de pós-graduação;
  • Processos seletivos no mercado de trabalho.
Além disso, o Lattes permite que sua trajetória seja avaliada de forma transparente, padronizada e verificável. Um currículo bem preenchido demonstra organização, compromisso acadêmico e envolvimento com atividades de ensino, pesquisa e extensão.

ORGANIZAÇÃO DE CERTIFICADOS: POR ONDE COMEÇAR?

Antes mesmo de inserir informações no Currículo Lattes, é fundamental organizar seus certificados. Isso evita erros, retrabalho e perda de documentos importantes.
O ideal é criar pastas digitais (no computador ou em um serviço de nuvem) separadas por tipo de atividade, como:
  • eventos acadêmicos
  • cursos e oficinas
  • projetos de extensão
  • pesquisa e iniciação científica
  • monitoria e estágios
Também é importante nomear os arquivos de forma clara, contendo o nome do evento ou curso, a instituição e o ano. Essa organização facilita muito na hora de preencher o Lattes e de apresentar documentos em seleções.

Lembre-se: o Lattes pede informações específicas, e elas precisam estar exatamente de acordo com o que consta no certificado.

O QUE DEVE (E O QUE NÃO DEVE) ENTRAR NO LATTES

O Currículo Lattes deve conter apenas informações acadêmicas, formativas e profissionais, devidamente comprovadas. Isso inclui participação em eventos científicos, cursos com certificação, projetos de pesquisa e extensão, publicações, apresentações de trabalhos e formação acadêmica.

Pode-se registrar as seguintes atividades:
  • Participação em eventos como Congressos, seminários, simpósios, jornadas, mesas-redondas, semanas acadêmicas e outros eventos científicos
  • Experiencias Profissionais como estágios (obrigatórios ou não)
  • Participação em Projetos de Pesquisa, Extensão, Residência Docente, PET, Monitoria ou  Iniciação à Docência 
  • Atividades em Centros Acadêmicos ou Cargos de Representação

DICAS ESSENCIAIS PARA MANTER O LATTES EM DIA

  • Manter o Currículo Lattes atualizado deve ser um hábito constante, não algo feito apenas quando surge uma seleção ou edital. Sempre que você concluir um curso, participar de um evento ou iniciar um projeto, o ideal é registrar o quanto antes. Se possível, registrar todas as atividades no fim do período.
  • Leia com atenção cada campo antes de preencher, utilize exatamente os dados que aparecem no certificado e revise todas as informações antes de salvar. Pequenos erros podem comprometer a avaliação do currículo.
  • Nunca insira informações em que você não possa comprovar. O Lattes é um documento público e, em muitos processos seletivos, as informações podem ser verificadas.
  • Valorizar publicação de Artigos, capítulos de livros, resumos, resenhas, textos em jornais/revistas que tenham DOI/ISSN/ISBN)
  • No Youtube como no Tik Tok possuem diversos tutoriais para inserir as atividades, bem como tutorial para criação de conta
  •  PDF com instruções do lattes Manual Currículo Lattes

15 junho, 2025

Entre ser e não ser: Homem com H

 Caro leitor(a),

      Faz bastante tempo que não escrevo, devido à correria e ao cansaço que venho sentindo ultimamente.No relato de hoje, apresento minhas reflexões sobre o filme Homem com H, que retrata a história do artista Ney Matogrosso, interpretado pelo ator Jesuíta Barbosa. Ontem (14/06), tive a oportunidade de assistir a esse incrível filme. Ele é tão cativante que não me deu sono, pois todas as cenas são muito atrativas e exigem um olhar atento e interessado na obra produzida.

          Ao iniciar, o filme começa a retratar uma situação da infância do Ney, e de imediato me lembrei muito da minha e de tudo que eu passei. O que veio à minha cabeça foram as aulas e as discussões sobre a violência nos espaços em que passamos. A primeira violência que um corpo ou pessoa dissidente sofre é no espaço familiar, seja ela violência física ou emocional. Isso foi o que me ocorreu durante minha infância e adolescência: crescer em um ambiente de olhares e escutas sobre ser gay ou não, sobre se comportar ou agir como "mulher", sobre os interesses por coisas femininas em vez de coisas masculinas. Os espaços começam a nos moldar, a nos controlar, a nos limitar, já dizia Foucault no livro Vigiar e Punir. É lamentável demais saber que essas violências começam, primeiramente, no espaço que deveria ser de acolhimento e segurança, mas que também é marcado por pessoas que deveriam nos proteger e acolher. O pior de tudo é que eu só tomei conhecimento sobre o que me ocorreu quando cheguei à universidade e comecei a refletir, voltando ao meu passado, passado esse que me recuso a relembrar. 

          São tantos momentos traumatizantes e tristes que acabam nos moldando durante a nossa trajetória de vida. Como pode um ser tão inofensivo e com tão poucos anos de vida ser tão desprezado ou violentado assim? O filme me fez pensar sobre isso. O pai do Ney é tão semelhante ao meu; o que eu via na tela, naquela cena, era como se fosse um flashback da minha vida passando naquele momento. O pai do Ney passou muitos anos da vida dele nesse papel de opressor. Tanto que Ney diz que nunca respeitou o pai, mas sim que tinha medo dele, e, no meu caso, a frase se aplica da seguinte forma: eu respeitava não por amar ou gostar dele, mas por ter medo. Por incrível que pareça, o meu medo era de que ele, em algum momento, me matasse. Ideias de uma criança com imaginação e pensamentos muito férteis naquela época.

          A gente que cresce sendo gay e não é aceito devido ao preconceito acaba se moldando ao espaço e sendo extremamente controlado por ele. Deixamos de ter interesse em certas coisas, de vivenciar determinadas experiências, de ser nós mesmos para tentar agradar os outros. Tudo para evitar punições ou sofrimentos. Acabamos abrindo mão dos nossos sonhos em prol de outras pessoas. O quanto isso é violento para uma criança.

          Ao longo do filme, é demonstrado como o pai de Ney, o tempo todo, reforçava o que seriam comportamentos e ações de “homem”. O meu pai não usava palavras, mas o silêncio e os olhares já eram suficientes. Fico me perguntando o que é pior: o silêncio ou as palavras? Ainda não tenho um consenso sobre isso.

          Além disso, uma das cenas mostra Ney falando sobre ser homem ou mulher e sobre sua orientação sexual. Isso me fez refletir sobre como crescemos ouvindo e sendo questionados o tempo todo a respeito disso. Parece que essas questões dizem mais sobre nós do que outras características muito mais importantes. As pessoas estão muito mais preocupadas em saber se você é gay ou não, se é ativo ou passivo ou qualquer outra coisa semelhante. É extremamente cansativo estar sempre ouvindo e sendo questionado sobre isso. O pior é quando você mesmo ainda não sabe exatamente quem é, e tantas perguntas ao mesmo tempo, vindas de amigos, familiares e da sociedade como um todo, tornam tudo ainda mais confuso. Estou cansado de passar por esse processo, porque, por incrível que pareça, nem eu sei exatamente o que realmente gosto ou tenho interesse.

          Outra questão a ser abordada é a nossa imagem e a escolha profissional. O filme me fez refletir sobre como nossa aparência influencia nisso e sobre o controle do corpo — no sentido de que, para seguir determinada profissão, é preciso agir, vestir-se e comportar-se de uma forma específica.Seguimos padrões e comportamentos previamente estabelecidos e, nessa reprodução, acabamos deixando de lado e perdendo nossa autenticidade, sacrificando quem realmente somos em prol de algo ou alguém. Esses padrões funcionam como mecanismos de controle dos corpos dissidentes, sempre ditando o que devemos vestir, o que podemos ou não falar, como devemos nos comportar, tudo isso em uma tentativa de obter aprovação dos outros.

          Abdicamos da nossa vida, dos nossos sonhos, das nossas vivências e, assim, perdemos nossa essência na busca inalcançável pela aceitação da sociedade. Ney foi uma figura grandiosa e crucial no contexto da ditadura militar. Ele quebrou estigmas e desafiou protocolos que lhe foram impostos antes mesmo de nascer. Rebolar diante das câmeras e usar maquiagem naquele período foi algo profundamente sensacional.

          Para finalizar este texto, quero destacar a importância de Ney ao retratar a vida na velhice sendo uma pessoa dissidente. Nos anos 1980, a epidemia do HIV no Brasil devastou grande parte da população LGBT+, e, hoje, temos poucas referências de relacionamentos gays de pessoas mais velhas em que possamos nos inspirar. Vivemos em um mundo moderno, onde a liquidez esvazia tudo, e os relacionamentos não são tão duradouros, tendo início e fim definidos. Termino de escrever este texto após muita reflexão. Recomendo fortemente que todos assistam ao filme e ressalto a importância da cultura para todos nós


05 maio, 2025

Até quando gênero, raça e classe serão tratados como assuntos a serem discutidos apenas no fim?

     Hoje tive um choque que me fez refletir bastante e voltar ao 1º período do curso de Ciências Sociais na UFPE. Em uma conversa com uma amiga, ela trouxe uma observação sobre como os temas de gênero, raça e classe são sempre discutidos no final das disciplinas. É de conhecimento geral que, no fim do período, os alunos estão cansados, sobrecarregados e exaustos, e muitos acabam utilizando suas faltas nesse momento para lidar com outras demandas, como provas e trabalhos.  

     Agora, no 3º ano dentro da universidade, essa troca me fez recordar todos os planos de aula em que os professores propuseram discutir esses temas, mas, quando essa discussão finalmente ocorre, é sempre no final da disciplina. Não sei se isso acontece de propósito ou não, mas é importante questionar por que o plano de aula é estruturado dessa maneira.  Não há maneiras ou formas de intercalar isso junto com que já  é considerado o "padrão"?

     Lamentavelmente, ainda há resistência por parte das ciências e dos docentes que ministram esses saberes em implementar a interseccionalidade durante suas aulas. Muitos argumentam que é necessário começar pelo estudo das origens — algo que conhecemos como os clássicos — e outros dizem que esses temas são assuntos contemporâneos, frequentemente rotulados como "modinha". No entanto, eu, Maycon, enquanto futuro educador, discordo desses posicionamentos, pois acredito que é perfeitamente possível trabalhar tanto os clássicos quanto esses temas que são considerados contemporâneos, mas que, na realidade, às vezes nem é contemporâneos assim, pois muitos autores passaram e passam por um processo de silenciamento/apagamento histórico. Muitas vezes, percebo que essa resistência parte de pessoas que não querem sair da zona de conforto ou que evitam pensar de maneiras diferentes.  

     É surreal perceber como alguns docentes reagem quando são questionados sobre a falta de autores que abordam essas temáticas, sentindo-se como se estivessem sendo afrontado. No entanto, as Ciências Sociais são um campo de questionamentos, e o questionamento é essencial para o avanço da ciência.  

     Termino esta breve nota citando Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, que afirmam que toda ação pedagógica é uma forma de violência e que essa ação também representa a dominação da cultura dominante.  

08 fevereiro, 2025

Qualidade das aulas das Ciências Sociais na Universidade Federal de Pernambuco - UFPE

 Caro leitor(a),

Escrevo isso porque a minha cabeça não aguenta mais pensar sobre isso e o quanto isso me irrita e mexe muito comigo. Antes de tudo, eu quero dizer que o que eu escrevo abaixo são as minhas observações e reflexões. Talvez eu possa sair como problemático ou louco, pois é isso que eu sinto quando penso sobre as aulas no curso de Ciências Sociais.


São 2 anos e 2 meses que estou dentro dessa universidade e dentro desse curso. Assim que entrei nessa universidade, nas duas primeiras semanas de aula, me deu muita vontade de desistir do curso, pois eu não entendia muito bem o que os professores diziam. Eu me sentia a pessoa mais burra do mundo e sempre após o encerramento da aula eu voltava para casa dizendo que aquele espaço não era para mim. Partilhei dessa angústia e sensação com os meus amigos diversas vezes.


O curso de Ciências Sociais é composto por 3 departamentos: Sociologia, Antropologia e Ciência Política. Para quem é do bacharelado e para quem é de licenciatura, há um a mais que é o departamento/centro de Educação. Contudo, a formação maior entre os alunos tanto de bacharelado quanto de licenciatura é de Sociologia e Antropologia


Quando se analisa o corpo docente do departamento de Sociologia e vê que os professores permanentes são compostos de 20 professores, dos quais apenas 7 são mulheres e 13 são homens. Já o departamento de Antropologia é composto por 19 professores permanentes, dos quais apenas 7 são mulheres e 12 são homens. Fiz essa demonstração para tentar sustentar o que vou dizer ao decorrer desse texto e para que você pense sobre a desigualdade ou desproporcionalidade.


Por muito tempo fiquei pensando sobre o ensino e a qualidade das aulas dos professores que já tive ao decorrer desses 2 anos e 2 meses de curso. Destaco que não utilizei nenhum método científico para fazer análise sobre a qualidade das aulas do curso. Apenas estou compartilhando as minhas experiências, observações e as trocas que tenho com amigos e colegas do curso.


Estou passando por um processo de aborrecimento com professores do curso, principalmente os professores homens. Eu não consigo lidar com tanta má qualidade (estou usando essa expressão para não dizer o que realmente penso sobre, pois o que penso é motivo de retaliação e talvez um processo).


Sendo mais objetivo e direto, pois não quero que fique um texto longo, mas ocorre que os professores do curso vêm deixando o curso em uma situação muito complexa e que tento de todas as formas compreender, mas não consigo. Se você for analisar o currículo desses professores, vai perceber que não têm preparo nenhum para lecionar. São professores que não preparam as aulas, não têm didática, não se autoavaliam sobre si e sobre o seu ensino, não fazem avaliação do encerramento das cadeiras que ministram durante o período com os estudantes, métodos de avaliação não tão eficazes assim. O que me salva ainda dentro desse curso é o departamento de Educação. Fazer licenciatura é ter todo um preparo desde o momento pré-aula, durante a aula e o pós-aula. É estudar formas de avaliação, formas de didática, formas de se comportar, se preparar e lidar com os alunos.


Fazer licenciatura é vivenciar dois mundos bem distintos entre as Ciências Sociais e a Educação. É tão contraditório que chega a ser muito caricato, pois o que somos ensinados dentro do Centro de Educação e o que é vivenciado com as Ciências Sociais é algo de outro mundo. Fico me perguntando como pode a universidade me cobrar para ser um bom professor se os meus próprios professores são péssimos?


Eu, Maycon, ando muito desmotivado com as aulas. Eu saio de casa já pensando na hora de largar, pois fico pensando que vou sair de casa para mais um dia lidar com um professor que não se prepara para dar aula e vai para a universidade apenas para ficar enrolando até dar a hora. Eu não saio de casa para ficar ouvindo professor fingir que dá aula conversando não.


Fazendo outra comparação, mas não querendo defender, percebe-se que as mulheres dos departamentos se preparam para dar aula de uma forma tão eficiente. Percebo que o meu desempenho nas cadeiras onde são professoras mulheres que estão ministrando são maiores do que as dos professores homens. São cadeiras ministradas por mulheres que me incentivam a fazer as leituras dos textos, marcar presença em todas as aulas e participar das aulas. Tem cadeira de professores que eu não leio o texto devido à vontade tão grande do professor de dar aula que me deixam tão incentivado, sabe (contém ironia).


Ainda mais, percebe que o desempenho de produção dentro do curso caiu muito e tem diversos fatores que eu super entendo, tais como que majoritariamente os departamentos de sociologia e antropologia são compostos por pessoas que possuem mais de 50 anos e eu entendo que ao envelhecer a nossa produtividade vem diminuindo mais, mas eu não consigo aceitar que o mínimo não seja feito.


Desde que eu me entendo como gente, eu compreendo que só posso assumir responsabilidade se eu puder cumprir aquilo. Além disso, uma coisa que aprendi na universidade é que há pessoas que são boas pesquisadoras, outras escritoras e há pessoas que são boas lecionando. Contudo, no curso de Ciências Sociais da UFPE há mais pessoas que são boas como pesquisadoras, mas não enquanto docentes.


Lamentavelmente, isso prejudica muito os alunos, pois a formação que se tem acaba se tornando defasada. Uma crítica que eu tenho a esse consenso no ensino superior é de que apenas a pessoa tendo uma graduação, mestrado ou doutorado pode se tornar professor, mas sem nenhuma capacitação na área da educação. Como pode uma instituição de ensino ter uma prática dessas e exigir que saiam de lá bons alunos de licenciatura é muito contraditório.


Quando se observa o ensino entre os homens e as mulheres, percebe-se que professoras estão em um nível de preparação muito maior do que os homens, no sentido de que as mulheres se esforçam mais do que os homens, enquanto os mesmos fazem apenas o básico e olhe lá, e as mulheres são as pessoas mais atacadas pelos alunos. Até o momento, não presenciei alguma discussão com professor homem e aluno, mas com professora mulher e aluno foi diversas vezes.


Outro fato que chega a ser interessante e engraçado entre os alunos é que assim que começa um novo período, você vê aluno detonando professor e relatando suas experiências nas cadeiras com os professores. São trocas de informações feitas para evitar se matricular com docentes que não são tão legais. Tem cadeira que tem tudo para ser maravilhosa, mas quando se deparam com X e Y professores bate um desânimo tão grande. Eu mesmo faço isso e tento até dar a 2ª oportunidade ao professor, mas o arrependimento bate após e já estou ciente que minha formação vai ser atrasada, mas me recuso também a sair prejudicado e fazer o curso de qualquer jeito.


A cada momento que se passa nesse curso eu tenho mais vontade de me distanciar. Não me vejo dentro da pós-graduação nesses departamentos, pois não quero ter que lidar com certos professores. Acho que querer prosseguir nesse espaço é pedir para enlouquecer e adoecer de estresse. Sinto que a cada dia mais a UFPE não é um espaço em que eu me sinta confortável. Acho que estou ficando cansado, saturado e irritado com muitas coisas que acontecem dentro desse curso.


31 dezembro, 2024

Fim do ano 2024

Caro leitor(a),

Este será o último texto que escrevo este ano, pois estou cansado físico e mentalmente. Não quero nem pretendo fazer um texto enorme. Quero dizer que estou me reconhecendo como "textudo". Esse é um nome que meus amigos me deram por fazer textos na maioria dos meus stories ou em grupos de WhatsApp. Não sabia que era assim e só reconheci isso agora.

Não sei nem por onde começar a falar sobre este ano. Escrevo este texto às 00h54 de uma terça-feira de dezembro e não faço ideia de quando isso será postado, pois acho que não conseguirei terminar agora.

Este ano foi um dos mais significativos para mim em todos os aspectos da minha vida. Fiz coisas que pensei que não faria e me refiz em tantas coisas, sabe? Digo que estou orgulhoso do caminho que venho trilhando. Nunca pensei nem imaginei — e digo isso ao Maycon da adolescência — que o que vem acontecendo durante este tempo é algo sensacional. O Maycon da adolescência, se soubesse o que o Maycon adulto está fazendo, ficaria tão feliz. Ficar em dúvida e sem perspectivas é tão triste e desanimador. Em muitos momentos, pensei em desistir de tudo e jogar tudo para o alto, pois não via mais sentido em continuar. O ano de 2024 representa e afirma que fazem duas décadas que estou vivo. Estou feliz por mais um ano presente nesta terra, mas triste por saber que completei 20 anos (não queria, pois queria ficar na casa dos 18/19) para sempre.

Este ano passei por tantas coisas que me deixaram preocupado, ansioso, triste, desanimado, feliz e orgulhoso de mim mesmo, sabe? Sou muito grato por tudo o que fiz e venho fazendo. Nunca imaginei que iria chegar ao nível de pesquisador e ter essa titulação em tão pouco tempo de vida. Vivendo em uma loucura com duas faculdades, estágio e projetos de pesquisa. Feliz por ter forças e agradeço demais ao meu bom Deus e aos Orixás que me guiam, iluminam e me protegem.

Agradeço demais a todas as pessoas que passaram pela minha vida e por todos os ciclos iniciados e encerrados. Sempre tenho em mente que tudo na vida tem um começo, meio e fim. Esse é o ciclo da vida, e precisamos entender isso.

Quero destacar o quão maravilhosa minha carreira acadêmica e profissional vem decolando, em nível sensacional, em um curto período de tempo. Quem diria que eu iria apresentar dois trabalhos, fazer publicação e participar de tantos eventos como ouvinte, construindo tanto aprendizado?

Sou grato pelas amizades que estão comigo e que me fortalecem dia a dia. Muito bom ter vocês comigo, comemorando minhas alegrias e estando comigo na minha tristeza. Digo que viver isoladamente é impossível e precisamos e devemos fortalecer os vínculos da coletividade.

Encerro este mês de dezembro um pouco triste por não ter ganhado as eleições para o diretório acadêmico de ciências sociais, mas reconheço que faz parte da vida e que, se este não foi o momento, tudo bem. Ainda mais, declaro que estou muito cansado, mas de uma forma surreal. Quero apenas poder acordar e não ter nada para fazer, nenhuma cobrança, ninguém me pedindo nada. Quero ficar no ócio.

Que novas coisas possam vir e novos caminhos se abram. Desejo a todo leitor, descendente e a qualquer pessoa uma vida de muita luz e prosperidade.

08 outubro, 2024

Aristocracia: Duas cidades em comum, Recife e São Lourenço da Mata

      


      Após as eleições e a divulgação dos resultados, percebe-se que a política brasileira mantém seu caráter tradicional, especialmente nas cidades de Recife e São Lourenço da Mata. Em São Lourenço da Mata, o prefeito Vinícius Labanca foi reeleito com 88,39% dos votos, enquanto em Recife, João Campos foi reconduzido ao cargo com 78,11% dos votos. O que une as famílias Labanca e Campos é a longa tradição no cenário político e a filiação ao mesmo partido.

      Essas duas famílias já estão preparando a próxima geração para ocupar cargos políticos em breve. Em São Lourenço da Mata, o filho do atual prefeito, Vinícius Labanca, já começa a aparecer em eventos, conforme a imagem abaixo:



Crédito: Reprodução Instagram (@vinicius_labanca)

      Esse ato pode ter sido intencional ou não, mas é através de mecanismos como esse que se constrói uma identidade visual. Segue-se a lógica do ditado: "Quem não é visto, não é lembrado".     

      Além disso, Lucca Labanca, primo de Vinícius, assumirá o cargo de vice-prefeito a partir de janeiro. Ele foi escolhido com uma estratégia clara: em dois anos, nas eleições para presidente, governador, deputados e senadores, Vinícius deixará o cargo de prefeito para concorrer ao posto de deputado. Com isso, a gestão municipal passará para as mãos de seu primo, garantindo a continuidade do poder dentro da família e reforçando os laços de perpetuação política.

      No mesmo movimento de perpetuação familiar, surge Camila Albanez, prima de Vinícius Labanca, eleita vereadora e destacada como a segunda mais votada entre os parlamentares municipais. Recife segue um modelo semelhante de sucessão familiar na política. Além de João Campos como prefeito, seu irmão, Pedro Campos, exerce o cargo de deputado federal. Agora, durante o processo de reeleição, surge José Campos, filho de Eduardo Campos e irmão de João e Pedro, fazendo suas primeiras aparições em atos políticos do PSB no interior.

      Nada na política acontece sem significado, mesmo que simbólico. Assim como em São Lourenço da Mata, o prefeito de Recife, João Campos, também se prepara para deixar a prefeitura e concorrer ao cargo de governador em 2026. Com isso, o vice-prefeito eleito, Victor Marques, que tomará posse em janeiro de 2025, assumirá a gestão municipal.

      Diante desse cenário, é possível especular que a construção da imagem de José Campos está em andamento, com vistas a uma candidatura a deputado em 2026 ou, quem sabe, à prefeitura de Recife em 2028. Assim como em São Lourenço da Mata, onde o filho mais velho de Vinícius Labanca pode também estar sendo preparado para um futuro político.

      Portanto, além de questões de raça e renda, o que essas famílias compartilham é o capital social, político e econômico que lhes permite influenciar e moldar o cenário político e perpetuar na política e continuar sendo aristocrata.



Para entender mais esse cenário deixo os seguintes conteúdos:

- Santos, M. C. As razões do sucesso da “vibe” de João Campos - Marco Zero Conteúdo. Marco Zero Conteúdo Disponível em:. https://marcozero.org/as-razoes-do-sucesso-da-vibe-de-joao-campos/

- Tavares, V. (2024, October 6). João Campos reeleito no Recife: o segredo do jovem prefeito “tiktoker” que conquistou quase 80% dos votos. BBC. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c4glvjkd098o

-  YouTube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=EaO61N4ffcc&ab_channel=AtilaIamarino>. 

- Campos, Coelho, Lyra, Urquiza, Ferreira, Tércio: cientista político alerta que lógica familiar coloca o Estado a serviço de interesses particulares; assista. Disponível em: https://www.brasildefatope.com.br/2024/09/26/campos-coelho-lyra-urquiza-ferreira-tercio-cientista-politico-alerta-que-logica-familiar-coloca-o-estado-a-servico-de-interesses-particulares-assista





29 julho, 2024

A desvalorização dos cursos de licenciaturas através dos cursinhos de pré-vestibular na lógica capitalista

      


      Na lógica capitalista, a desvalorização dos cursos de licenciatura é um fenômeno complexo que muitas vezes é exacerbado pela ênfase dada aos cursos de pré-vestibular, especialmente na preparação para cursos de maior prestígio social, como medicina e direito. Essa desvalorização é alimentada por diversos fatores, incluindo a pressão social e familiar para que os estudantes busquem profissões consideradas mais prestigiosas e lucrativas, bem como a percepção de que os cursos de licenciatura são menos importantes ou menos valorizados pela sociedade.

      Além disso, a desvalorização dos cursos de licenciatura também está ligada à forma como a educação é estruturada dentro da lógica capitalista. A educação é frequentemente vista como um produto a ser consumido, e os cursinhos pré-vestibulares são vistos como uma forma de investimento para garantir um retorno financeiro futuro, ao passo que os cursos de licenciatura são percebidos como menos rentáveis e menos promissores em termos de retorno financeiro.

      É importante ressaltar que o desejo de seguir carreira em medicina muitas vezes não é um sonho orgânico, surgido naturalmente do estudante, mas sim um sonho projetado e construído pelos responsáveis, pela sociedade e pela mídia. A medicina é frequentemente retratada como a profissão ideal, com alta remuneração, status social elevado e a capacidade de salvar vidas, o que contribui para a sua maior visibilidade e prestígio em comparação com outras profissões, como a docência.

      Essa valorização desproporcional de determinadas profissões em detrimento de outras contribui para a desvalorização dos cursos de licenciatura, que são fundamentais para a formação de professores capacitados e engajados. A falta de reconhecimento e valorização dos profissionais formados em licenciatura pode desestimular estudantes talentosos e comprometidos a seguir carreira no magistério, o que pode ter impactos negativos na qualidade da educação oferecida.

      Salienta-se que os cursos de tecnologia estão superando os cursos de medicina e direito como os mais concorridos e a Universidade Federal de Pernambuco já comprova isso, pois as três maiores notas de corte foram dos cursos de sistemas da informação (802,49), ciência da computação (801,38) e engenharia da computação (794,25).

      Logo, é necessário repensar a forma como a educação é valorizada e percebida na sociedade. Isso inclui reconhecer a importância dos cursos de licenciatura na formação de professores de qualidade e garantir que esses profissionais sejam devidamente valorizados e remunerados pelo seu trabalho.

17 julho, 2024

Da perfomance da área jurídica e o apagamento da personalidade humana



Caro leitor,  isso que escrevo acho que é mais uma carta aberta ou talvez um desabafo, entenda como quiser.

     Durante algum tempo, venho pensando sobre o meu papel dentro da carreira jurídica e, a cada dia que passa, sinto que essa área não me pertence. Sabe aquela sensação de que você está em um local que não é apropriado e que não condiz com sua realidade? Bom, é isso o que eu sinto.

     Ao olhar para o campo jurídico, refletir e questionar tantas coisas que ele produz e perpetua, ainda é o desejo de não querer estar perto. Sinto que essa área é um espaço que propaga a desigualdade, que não representa a população brasileira, um espaço de disputa de ego, individualidade e arrogância.

     Ao analisar essa área, sinto que ela molda o ser humano ou quem está nela; ou melhor, ela poda (no sentido de cortar mesmo), pois essa área não foi projetada para corpos iguais ao meu ou semelhantes. Esse podar está no sentido da forma que as pessoas se vestem (uma vestimenta de origem europeia que não condiz com o clima do Brasil), poda ainda na forma de falar (apagando as variações linguísticas de uma nação que teve influências de vários dialetos e exige uma linguagem que nem brasileira é, de forma erudita e rebuscada) e poda ainda na forma de se comportar (já que essa carreira foi projetada, elaborada ou criada - entenda como quiser - para um tipo de corpo específico, o padrão que a sociedade “normalizou” e que todos nós conhecemos, vulgo branco, cis e heteronormativo).

     Além disso, ela foi projetada para que os cargos de grande importância e relevância social para a sociedade brasileira fossem assumidos pelas dinastias de povos estrangeiros ou de famílias brasileiras que continuam com a prática do nepotismo e aristocracia.

     Além disso, a carreira de advocacia vem sofrendo com a precarização e exploração que o sistema capitalista vem impondo nos últimos tempos. Além da carreira profissional ou do trabalho, o ensino vem sendo sucateado no setor privado. Cabe destacar que o Brasil é o país com a maior quantidade de cursos jurídicos do mundo.

     Agora, quero fazer uma ressalva com base nos relatos que vivencio e troco com colegas de diversas áreas (cursos) das universidades públicas. O ensino de alguns cursos, como o de direito, sofre com um problema de solidariedade, empatia e falta de noção da realidade pelo corpo docente. Eu sei que, infelizmente, a nossa forma de aprendizagem está muito centrada ainda no modelo positivista, onde o professor fica na frente, as cadeiras enfileiradas e os alunos apenas escutam e concordam.

     O que ocorre é que, dentro das salas de aula, onde deveria ser um espaço de trocas, pois ao mesmo tempo que o professor ensina ele também aprende, conforme Paulo Freire fala no seu livro "Professora, sim; tia, não – Cartas a quem ousa ensinar", em muitos locais torna-se um espaço de opressão, traumatização e medo. O corpo docente jurídico, tanto de faculdades públicas quanto privadas, têm uma disputa de ego no sentido de ser o senhor e detentor do conhecimento, com os alunos e ficam brigando entre quem sabe mais.

     Fico me perguntando ainda o que dá a capacidade ao ser humano de ensinar ao outro se ele não tem preparo nenhum para lecionar e não compreende nada do que realmente é educação. Sou bem crítico da situação em que, no Brasil, a pessoa com mestrado, especialização ou doutorado está plenamente capacitada para exercer a docência. Claro, há exceções de professores que compreendem essa realidade, mas estou aqui escrevendo de forma geral, não vamos generalizar. 

     Dar aula não é simplesmente chegar em um local e apenas falar, mas é se preparar, organizar e executar a aula do jeito que estava programada. É ter um começo, meio e fim. E, para além disso, precisa-se fazer uma leitura dos corpos que estão ali. O mundo acadêmico tende a ser muito cruel com os discentes que tiveram um ensino básico afetado. 

     A academia tende a igualar a forma de interpretar e a compreensão dos alunos de forma igual, porém sabemos que, em determinados cursos, a trajetória de vida dos alunos é de formas distintas. Por mais que, no curso de Direito, nas universidades públicas, ainda se tenha uma composição majoritária de alunos que têm a mesma classe social e estrutura de ensino semelhantes, ainda tem aquela minoria que se faz presente, por mais que ela seja “excluída ou ocultada”. Ela está ocupando aquele espaço e não se pode fingir que ela não existe.

     Acho que por hoje foi isso e acredito que, em breve, haverá mais outro desabafo. Expresso o que estou sentindo no momento e gosto de compartilhar. Quero destacar que não escrevo para agradar alguém, pois não sou Jesus nem outra entidade religiosa para agradar alguém.



03 junho, 2024

Quem tem medo da greve?


     Antes de poder explorar a questão da greve nacional da educação que está ocorrendo tanto com os Técnicos Administrativos da Educação quanto com os professores, quero que leiam a seguinte frase do livro ABC do Socialismo, organizado por Bhaskar Sunkara, Aline Klein e Victor Marques, e reflitam.

“A luta de classe muda as ideias e os preconceitos das pessoas e forja novos laços de solidariedade na  classe. Lutas da classe trabalhadora tendem desempenhado um papel central na conquista de vários corpos oprimidos na luta contra um opressor comum”

     Desde o dia 11 de março, os Técnicos Administrativos da Educação (TAE’s) das universidades, institutos e colégios federais entraram em greve, e posteriormente, a partir do dia 15 de abril, os docentes também deflagraram greve, unindo-se aos TAE’s em prol de melhores condições de trabalho. No dia 11 de junho, os TAE’s completarão três meses de greve, e os professores completarão dois meses no dia 15 de junho. Cabe destacar que os TAE’s constituem uma das categorias com o pior piso e teto salarial do funcionalismo público federal.

     Durante este período, ocorreram negociações com o Governo Federal, especificamente com o Ministério de Gestão e Inovação em Serviços Públicos (MGI), resultando em duas propostas para os docentes e técnicos. No entanto, nenhuma dessas propostas atendia aos interesses das duas categorias, pois não previam nenhum reajuste salarial para este ano, algo que ambas as categorias estão reivindicando durante esta greve.

     Ao longo deste período de greve, diversos mecanismos de desmobilização e encerramento da greve foram impostos a essas categorias pelo sistema capitalista e pelo Governo Federal. Esses mecanismos variam desde a circulação de pensamentos que questionam o motivo da greve, gerando conflitos internos entre as classes, até estratégias de negociação separadas para diminuir a força conjunta dessas duas categorias.

     Ao acompanhar toda essa situação, deparei-me com comentários chocantes entre alunos, professores e a sociedade em geral nas postagens das redes sociais dos sindicatos. Isso inclui xingamentos, desmoralização dos docentes, questionamento da produção de conhecimento e outras ofensas pesadas.

     Afirmar que essas propostas contemplam essas categorias é não ter noção da realidade e da importância dessas categorias para o desenvolvimento social, político e econômico do país. Dizer que o salário dos professores é suficiente é inadmissível. Como pode um(a) professor(a) com graduação, mestrado, doutorado ou pós-doutorado receber menos de 13 mil reais? Como podemos aceitar que um professor com duas graduações e pós-doutorado receba menos de 6 mil reais? Este é o caso de um docente com contrato temporário na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), como se pode verificar no portal da transparência.

     Cabe destacar a disparidade de conhecimento e salarial entre duas categorias do funcionalismo público: juízes necessitam apenas de uma graduação em Direito e três anos de prática jurídica, além de outros requisitos não tão exigentes, e têm piso salarial de 30 mil reais. No entanto, sabemos que um juiz frequentemente recebe muito mais que o piso, às vezes com remuneração dobrada, diferente de um professor que, para tentar se igualar ou se aproximar desse piso, deve dedicar muitos anos ao serviço público e envolver-se em diversas atividades além de suas atribuições básicas.

     Salienta-se que as três categorias (PF, PRF e PP) obtiveram um reajuste significativo este ano sem necessidade de greve, o que é bastante estranho, não é?

     Chega a ser paradoxal os discursos proferidos pelos progressistas e até mesmo pela esquerda sobre a educação ser a transformação de realidades, de pessoas e de um país, enquanto a cada ano a educação se torna mais precarizada e entregue ao setor privado. Isso inclui a retirada de recursos públicos que deveriam ser investidos na educação pública, mas estão sendo destinados ao setor privado.

     Isso foi comprovado na tese de doutorado de Fernanda Cosme da Costa, intitulada “FIES, PROUNI e PROIES (2003/2009): valorização do capital no ensino superior”, onde foi relatado que entre 2015-2023 o orçamento para o ensino superior público foi de 287 bilhões, comparado a 446 bilhões destinados ao ensino superior privado. A cada dia, a educação é mais atacada, seja pela precarização do trabalho dos professores, pelas péssimas condições de infraestrutura dos locais de trabalho ou pela falta de recursos para o funcionamento das instituições.

     Outra crítica que chega a ser extremamente ridícula é dizer que o momento agora não é adequado para a greve. Diante disso, eu questiono: existe algum momento adequado para deflagrar uma greve? Se esperarmos pelo momento ideal, ele nunca chegará.

     Além disso, outro ponto a ser questionado durante este momento de greve é o silêncio ensurdecedor dos progressistas e da esquerda brasileira. Até o momento, não vi pessoas de notória influência política juntarem-se à causa das categorias e exigirem do Governo Federal uma solução, nem vi cobertura na mídia nacional, controlada pela burguesia.

     Durante a época eleitoral, uma das estratégias do Presidente Lula foi afirmar que a educação seria prioridade, atraindo votos do campo acadêmico. Contudo, chega 2024, após um ano e seis meses de gestão, e a educação não está sendo priorizada, com professores e TAE’s indo a Brasília exigir condições mínimas para trabalhar. Se a educação fosse realmente prioridade, não teríamos greve neste momento, nem docentes e TAE’s em Brasília negociando. O discurso é retórico, mas a materialização não existe.

     A greve consiste em um movimento político onde uma determinada classe trabalhadora se une através de seu sindicato para reivindicar melhores condições de trabalho. Logo, a greve nacional da educação federal reflete e prova que a educação brasileira está em decadência, evidenciada pela precarização da mão de obra dos trabalhadores, das infraestruturas das universidades e pela falta de recursos para manutenção e funcionamento das instituições.

     Ao analisar e observar toda essa situação, parece-me que essas categorias que estão reivindicando melhores condições não são valorizadas pelo Estado. É colocar essas categorias contra a própria sociedade e dizer que o que estão fazendo é birra. É pegar toda a mão de obra, esforço e conhecimento produzido e jogá-los no lixo. A educação não é prioridade em nenhum momento, exceto na época eleitoral. É lamentável tudo isso que estamos passando e desejo força aos docentes e técnicos administrativos da educação.

07 março, 2024

Resenha do Livro O Perigo de Uma História Única



     O livro "O perigo de uma história única" é uma adaptação de uma palestra dada por Chimamanda Ngozi Adichie no TED Talk em 2009. Adichie, escritora negra, nigeriana e feminista, aborda em suas obras uma mistura de ficção e realidade, compartilhando reflexões significativas. Este é o 2° livro que leio dela, o 1° em 2021 e o 2° agora em 2024.

     A leitura desencadeou reflexões sobre como a construção da história permeia desde o ensino básico até o superior, destacando a importância de termos cuidado ao ouvir apenas uma narrativa.

Do direito:

     No momento em que estava lendo, comecei a refletir sobre a importância de nós, futuros juristas, sabermos e procurarmos sempre ouvir os dois lados da história. Por mais que, às vezes, um lado não seja nada agradável, temos que estar dispostos a conhecer o outro lado da moeda. Ao não termos esse cuidado, podemos nos prejudicar e coordenar alguém ou alguma situação por não termos ouvido ambas as perspectivas. 

Do social:

     A história contada nas escolas sempre é apenas vista de um lado - lado esse que conhecemos bem, do ponto de vista do ocidente. Em diversos momentos da história do mundo, pode-se perceber que há várias deturpações contadas desde o ensino básico ao ensino superior. O quanto isso apaga a história de um povo e sua cultura não está no gibi, e esse processo chamamos de epistemicídio. 

     Adichie traz uma fala que se torna atual até os dias de hoje, por mais que tenham se passado anos, "A história única cria estereótipos, e o problema com os estereótipos não é que sejam mentira, mas que são incompletos. Eles fazem com que uma história se torne a única história."

     Ao ler isso, lembrei-me de toda a fase do meu ensino básico, onde a história da África sempre foi contada de uma visão única. A África que eu conheci na escola foi retratada como uma região pobre, onde as pessoas passam fome e morrem diariamente. Ao entrar na faculdade, tive a oportunidade de adquirir conhecimento mais amplo e descobri que a África não se resume a isso; ela tem uma rica história, cultura, intelectuais e prosperidade financeira. Ao refletir sobre isso, surge a necessidade de questionar como a educação ainda está fortemente voltada para a visão do branco, europeu e do ocidente, e a importância de quebrar essa "hegemonia."

     Ao abordar o ensino superior, quero destacar que, infelizmente, em algumas áreas, há a perpetuação da história eurocêntrica.

    Adichie instiga a repensar a hegemonia na educação, destacando a necessidade de superar a visão eurocêntrica, especialmente em algumas áreas do ensino básico ao superior.

 Recomendo a leitura a todos, pois proporciona um conhecimento enriquecedor e questionador.

06 fevereiro, 2024

Raquel Lyra e Álvaro Porto: possível impeachment da governadora do estado de Pernambuco?

(Lucas Patrício, 2024)


Primeiramente, quero prestar toda minha solidariedade a Raquel Lyra, que, nesta semana, passou por uma violência política(machismo). Infelizmente, a politica brasileira ainda é predominantemente ocupada majoritariamente por homens que tende a proteger os seus semelhantes(homens) e realizarem a manutenção de poder. 

Por mais que eu discorde de diversos atos ou atitudes da governadora de Pernambuco(PE), é lamentável essa situação horrível que foi exposta pelo representante do poder legislativo estadual de PE. 

Atualmente, há uma disputa da Lei de Diretrizes Orçamentárias entre o poder legislativo estadual e o executivo. Em uma declaração(petição inicial) apresentada em 26/01 ao STF, a governadora teme que ocorra um processo de impeachment. Ao tentar analisar essa situação, o que me parece é algo muito semelhante ao processo que a ex-presidente Dilma Rousseff passou em 2016. Sabemos que Raquel não tem um bom diálogo com a base nem com o legislativo.

Desde que Raquel assumiu a gestão, os meus posicionamentos sempre foi que ela iria sofrer com os problemas de machismo e coisas relacionados sobre isso. Ao falar sobre política, a questão de gênero está muito presente. Durante esse período de gestão, Pernambuco está cada vez mais afundando em diversos problemas. Contudo, cabe destacar que esses problemas que ainda persistem não surgiram nesta gestão. São nada mais do que heranças que são passadas de 4 em 4 anos, e não há alguém que realmente tenha coragem de resolver esses impasses, apenas promessas em épocas de eleição.

O que me parece é que estrategias estão sendo elaboradas para destituir a atual governadora, e cabe destacar que houve um deputado em uma declaração que afirmou que isso poderia ser uma possibilidade. Logo, isso sustenta a minha hipótese. Se chegar a esse ponto, é lamentável novamente uma mulher ser retirada do poder por homens. 

Ao expressar tudo que foi mencionado acima, estou ciente do caos em que PE se encontra, mas estou analisando no sentido da violência de gênero que ocorre. Tudo que eu queria, no presente momento, era estar nos bastidores para acompanhar essa situação. 

01 janeiro, 2024

Carteira de Estudante Gratuita: saiba quem tem direito e como solicitar

Estudantes entre 15 e 29 anos inscritos no Cadastro Único (CadÚnico) têm direito à emissão gratuita da Carteira de Identificação Estudantil (CIE). O documento garante meia-entrada em eventos culturais e pode ser solicitado pela internet.

O benefício é assegurado pela Lei Federal nº 12.933/2013, que regulamenta o acesso à meia-entrada em cinemas, shows, teatros e eventos esportivos em todo o país.

De acordo com o Governo Federal, a isenção da taxa é concedida aos jovens que possuem o ID Jovem ativo, programa voltado à ampliação do acesso da juventude de baixa renda à cultura e ao lazer.

O que é a Carteira de Identificação Estudantil (CIE)?

A Carteira de Identificação Estudantil (CIE) é o documento oficial que comprova o vínculo do estudante com uma instituição de ensino pública ou privada.
Ela é válida em todo o território nacional e assegura benefícios como:
  • Meia-entrada em eventos culturais e esportivos
  • Descontos em cinemas, shows e teatros
  • Acesso a políticas públicas voltadas à juventude

A emissão da CIE é regulamentada pela Lei nº 12.933/2013, que garante o direito ao benefício da meia-entrada.

Quem tem direito à carteira de estudante gratuita?

Para obter a isenção da taxa de emissão, é necessário atender aos seguintes critérios:
  • Ter entre 15 e 29 anos
  • Possuir renda familiar mensal de até dois salários mínimos
  • (R$ 3.242,00 em 2026)
  • Estar inscrito no Cadastro Único do Governo Federal (CadÚnico)
  • Ter o ID Jovem válido

O que é o ID Jovem?

O ID Jovem é um documento digital do Governo Federal destinado a jovens de baixa renda. Ele garante benefícios como:
  • Meia-entrada em eventos culturais
  • Gratuidade ou desconto no transporte interestadual
  • Isenção da taxa da carteira de estudante

Como emitir o ID Jovem?

Para emitir o ID Jovem, o jovem deve:
  • Estar inscrito no CadÚnico
  • Ter dados atualizados nos últimos 24 meses
  • Ter entre 15 e 29 anos
Emissão gratuita pelo site oficial:

Como emitir a Carteira de Estudante gratuita

Siga o passo a passo abaixo com atenção:

1- Passo - Solicitação no site

Acesse o site oficial do Documento Nacional do Estudante (DNE) e realize a solicitação da carteira:

Preencha todas as informações e, se possível, já anexe:
  • Documento de identificação (RG, CNH, RNE ou passaporte)
  • Foto estilo 3x4
  • Comprovante de vínculo estudantil
  • (declaração da instituição ou boleto de mensalidade emitido em 2026)

2- Passo - Escolha o boleto

No momento do pagamento:

  • Escolha boleto bancário

  • Não efetue o pagamento


3- Passo - Anote o número da solicitação

Após finalizar essa etapa, o sistema exibirá o número da solicitação.
➡ Anote esse número, pois ele será necessário.

4- Passo - Envio do e-mail para isenção

Envie um e-mail para:

sae@documentodoestudante.com.br

Assunto do e-mail:

Isenção Carteira de Estudante

Corpo do e-mail (modelo):

Prezados(as), boa tarde!

Solicito a isenção da taxa da carteira de estudante. Todos os documentos foram anexados no site e as informações preenchidas também. Conforme solicitado, segue em anexo o ID Jovem e o RG.

N° de Solicitação: xxxxxxxx

Anexe os seguintes documentos:

  • ID Jovem
  • Documento oficial com foto (RG ou CNH)

5- Passo - Aguardar retorno do DNE

Após o envio do e-mail, você poderá receber:

  • Um e-mail confirmando que o pedido está em análise e que tem prazo de análise de 2 a 5 dias úteis 

  • Outro solicitando reenvio dos documentos, caso necessário

⚠️ Observação: o segundo e-mail pode não chegar, isso é normal.

6 - Passo - Finalização do pedido

Após a validação:

  1. Se tudo estiver certo, você receberá um e-mail informando que o processo foi finalizado e, se for deferido, poderá concluir a solicitação

  2. Acesse novamente o site do DNE

  3. Altere a forma de pagamento

  4. O valor do pedido aparecerá como R$ 0,00

  5. Finalize a solicitação

  6. Aguarde a entrega da carteira de estudante no endereço cadastrado

Pronto!

Após esse processo, sua Carteira de Identificação Estudantil será enviada gratuitamente para sua residência.



palavras-chaves: carteira de estudante; gratuidade; 2026; carteira de estudante 2026

04 dezembro, 2023

Resenha do livro Eu Odeio os Homens: Um desabafo de Pauline Harmange


O livro "Eu Odeio os Homens: Um desabafo", escrito pela autora Pauline Harmange e ativista feminista, publicado no ano de 2021 no Brasil. É uma obra provocativa e polêmica que destaca uma perspectiva singular sobre as relações de gênero. A autora aborda temas sensíveis à feminilidade, poder e desigualdade, apresentando uma visão crítica sobre o papel histórico e contemporâneo dos homens na sociedade.

Antes de tudo, é bom informar que esse livro incomodou tanto aos homens que tanto a autora como a editora foram acusadas de incitar ódio contra homens por um assessor do Ministério de Igualdade de Gênero da França que ameaçou de mover uma ação criminal e solicitou que removesse os livros da comercialização. 


Pauline Harmange inicia o livro com um desabafo franco, mergulhando nas complexidades das dinâmicas do gênero. A autora não tem medo de expressar sua raiva e frustração, oferecendo uma abordagem visceral que desafia as normas convencionais. Sua linguagem é direta e, por vezes, provocativa, convidando os leitores a refletirem sobre as estruturas de poder existentes.


O livro conta com 9 capítulos curtos, e possivelmente, em 5 horas de leitura ou menos, o leitor consegue terminá-lo. A introdução começa com a autora explicando o motivo da escrita do livro e como ela se sente em relação aos homens, destacando a horrível natureza do patriarcado.


Posteriormente, a autora desenvolve o conceito de misandria, algo que eu não tinha a mínima ideia do que era, mas foi interessante descobrir e entender a perspectiva da autora. Misandria, em resumo, refere-se à raiva das mulheres contra os homens, ao contrário do conceito machista. Paula ainda discute como alguns homens afirmam ser feministas, mas não desconstroem ou renunciam aos seus privilégios, utilizando isso para se aproveitarem das mulheres, algo que conhecemos  como "ESQUERDO MACHO".


Uma das coisas que mais me chamaram atenção neste livro é que, após a autora iniciar seu desabafo, ela explica a situação de seu relacionamento com o marido, contextualizando o seu modo de vida para evitar ser chamada de hipócrita. Isso é fantástico, pois quem tiver mente aberta entenderá a autora.


Um capítulo muito interessante e que foi fundamental para a construção do meu conhecimento sobre o feminismo e como as mulheres se sentem diante desse movimento é "Deixe a raiva das mulheres rugir". Este capítulo aborda as emoções das mulheres e sua situação de vulnerabilidade em relação aos homens, assim como a percepção da sociedade sobre isso. Acho que esse trecho pode exemplificar melhor esse entendimento da sociedade e de como ela molda os homens:

“A raiva dos homens é espetacular. Ela se manifesta às vezes em gritos, e em pancadas contra objetos materiais, na maior parte dos casos - mas nem sempre,as inúmeras mulheres que apanharam do marido são testemunhas. Em suma, a raiva dos homens é repleta de agressividade. Estimulamos os rapazes a sentir raiva - é sempre melhor que chorar como uma garotinha -  e revidar.”


Além disso, há outro capítulo maravilhoso, que é 'Médiocre como um homem', o qual explica como nossas atitudes enquanto homens são bem vistas na sociedade. Por mais que façamos o mínimo, e às vezes nem isso, temos um prestígio diante da sociedade. Não temos a mesma cobrança que uma mulher tem; não somos questionados ou descredibilizados da mesma forma que as mulheres. É impressionante como a sociedade considera algo surreal quando um homem realiza tarefas domésticas ou vai buscar o filho na escola, enquanto as mulheres desempenham essas atividades todos os dias, sem receber o mesmo reconhecimento que os homens.


Esse capítulo me fez refletir sobre minhas atitudes e mudá-las, pois não adianta eu pregar algo e não fazer. O quão hipócrita eu seria.


Ao longo da narrativa, a autora explora várias facetas das relações entre homens e mulheres, desconstruindo estereótipos e questionando normas condicionais. Suas análises são fundamentadas em sua perspectiva pessoal, mas também incorporam ideias feministas mais amplas, provocando uma reflexão profunda sobre o feminismo..


A força do livro reside na capacidade de mexer  com o leitor ao ponto de  confrontar suas próprias opiniões e preconceitos. No entanto, é importante observar que algumas partes do livro podem ser consideradas extremas para alguns leitores, o que pode gerar reações variadas.


Portanto, a obra “Eu Odeio os Homens: Um desabafo” é uma leitura que incita o debate e desafia as convenções sociais. A autora não busca consenso, mas sim provoca reflexões sobre as estruturas de poder que moldam as relações de gênero. Este livro é uma obra intensa e provocativa que certamente deixará os leitores reflexivos. Essa é uma obra que entrou para os melhores livros lidos no ano de 2023 e favoritos. 5/5


18 outubro, 2023

Resenha do Livro "Como ser um Educador Antirracista" de Bárbara Karine

 



O livro “Como Ser um Educador Antirracista”, escrito pela autora Bárbara Carine e publicado no ano 2023, tem como objetivo apresentar caminhos para educadores serem antirracista nas suas práticas pedagógicas. 

A obra começa com a apresentação da autora ao longo de sua construção performática como intelectual, apresentando como se deu o início da escrita desse livro. Desde o princípio, a autora logo deixa evidente que não apresentará algum tipo de procedimento revolucionário, mas sim apontará caminhos emancipatórios no campo da educação.

Ainda mais, a autora explica como se deu e autointitulou como "intelectual diferentona". Esse termo se deu porque Bárbara não se rendeu à perspectiva performática da produção ocidental do pensamento e por atuar no campo da "intelecpluralidade", conceito desenvolvido no seu pós-doutorado. Este conceito pauta a ruptura com o modelo único de intelectualidade imposto pela visão brancocêntrica ocidental, que prevê uma ritualística epistêmica e performática para a construção de um intelectual.

Além disso, Bárbara faz uma mini apresentação sua, mas para mais especificações do seu currículo, ela direciona o leitor a pegar o seu nome completo e pesquisar no site currículo lattes. Bárbara está mais interessada em que o leitor conheça a sua obra do que em sua formação.

Na primeira parte, denominada "Eu, professor branco, posso ser antirracista?", a autora vai abordar a pergunta que mais escuta de pessoas brancas: qual é o papel delas na luta antirracista? Nesse contexto, a autora vai apresentar o motivo pelo qual escuta essa pergunta com tanta frequência. Após isso, a filósofa começa a fazer toda uma contextualização sobre a luta dos povos negros e como todo esse processo de exploração, escravização e humilhação que os povos negros passaram e passam nos dias atuais.

Na segunda parte, denominada “Um caso de racismo na escola: como atuar?”, Bárbara Carine vai dizer que o Brasil é um país estruturalmente racista e que, nesse cenário, não há como fugir do racismo na escola. A autora ainda faz uma relação do caso de George Floyd e a descoberta do racismo com a pandemia, como a pandemia  desvelou o racismo que estava exposto, escancarado havia séculos, mas que a ignorância deliberada da branquitude a impedia de ver(Carine, 2023, p. 69).

Como também vai explicar como se deu o pacto da branquitude (um sistema de privilégio que beneficia pessoas brancas), como se deu a construção de raça, como se deu o processo de animalização das pessoas negras e a construção do mito da democracia racial. 
No final dessa parte, Bárbara vai afirmar que o antirracismo é uma luta de todos e discute o lugar de fala de cada um com um exemplo.

Bárbara apresenta um caminho de como a escola e quem a compõe deve agir quando houver um caso de racismo, visto que o racismo é um crime previsto na lei n. 7.716/1989. Além disso, Bárbara relata que nenhum crime de racismo pode ser tratado como algo pontual, apesar de a lei o classificar dessa forma (Carine, 2023, p. 72).

O que Bárbara quer dizer é que não é suficiente apenas prender quem comete o crime de racismo, mas também é essencial criar meios para fazer com que uma pessoa que cometeu o crime reflita sobre a estrutura desse caso. Essa proposta dela é a sugestão que ela apresenta para o que uma escola pode fazer.

No decorrer dessa parte, Bárbara vai discorrer duas coisas bem interessantes: a formação de educadores antirracistas e como aprender dói. Na formação de educadores antirracistas, ela inicia explicando como se deu o início dos trabalhos letivos na Escola afro-brasileira Maria Felipa e como havia um déficit muito grande na formação dos professores que faziam parte da escola.

No tema "Aprender dói", abordado no livro, Bárbara vai dizer que o aprender não é um processo trivial e que aprender dói, tanto do ponto de vista psíquico, no sentido de se apropriar do novo e reestruturar seu pensamento a partir deste, quanto do ponto de vista social.

Na terceira parte, denominada "Como pensar práticas antirracistas em sala de aula", a autora vai apresentar uma parte que provavelmente é a mais esperada pelos leitores. Os leitores podem ficar na expectativa de que a autora apresente alguma receita, mas a própria Bárbara já havia relatado no início do livro que não vai apresentar propostas revolucionárias, e sim caminhos que podem ser seguidos.

A autora vai contextualizar sobre o processo de conhecimento ocidental e de como esse conhecimento está tão enraizado nas escolas brasileiras. Ela discutirá a importância de apresentar outras histórias que não são normalmente apresentadas aos alunos. A filosofá vai destacar a importância de um desenvolvimento de um projeto pedagógico baseado em potências culturais. Esse projeto que ela cita foi o projeto implementado na sua escola, Maria Felipa, e de como a escola busca construir um sistema educacional a partir da não estereotipagem das práticas pedagógicas no âmbito da educação para as relações étnicos-raciais (Carine, 2023, p. 97).

Um dos marcos mais importantes de todos, que vai matar a curiosidade de vários gestores, professores e coordenadores de uma instituição de ensino, é saber o calendário decolonial da Escola Afro-brasileira Maria Felipa, como Bárbara e outros profissionais desenvolveram e implementaram na escola. Trata-se de uma escola diferente, que apresenta outra cultura, sem ser ocidental, apresentando aos alunos novos saberes e comemorando datas comemorativas dos seus ancestrais.

Na quarta parte, denominada "Diversidade não se constrói, se celebra", a autora vai abordar como a sociedade é centrada no homem branco e trazer a reflexão da primeira imagem do corpo humano que é vista na vida dos leitores, através dos livros didáticos da disciplina ciência/ biologia, que...
“não foi de uma mulher negra, de uma mulher, de uma pessoa trans, de um homem que fosse afeminado, de uma criança ou um idoso, de um corpo com deficiência ou de um corpo gordo, mas o que foi mostrado é o corpo de um homem branco cisgênero adulto em idade economicamente ativa, com estética de “machão”, com pênis destacado, corpo atlético e sem deficiência”(Carine, 2023, p. 118) 

A autora relaciona como essa noção de humanidade é produzida e difundida em manuais científicos que adentram as escolas básicas e formam o imaginário coletivo da população. Essa construção explica muitas das coisas que gostamos e de como também nos relacionamos com outras pessoas.

 
Ainda mais, Bárbara aborda um tema super importante que são os espaços de poder que estão reservados para alguns. A discussão se inicia com o questionamento do Brasil ser um país tão rico e existir uma diversidade cultural e existencial, mas nos espaços de poder não refletem essa pluriversalidade. Como o Brasil ainda está sob uma óptica (visão) ocidental, essa visão que nutre as estruturas de opressão.

Na quinta parte, denominada "Sou contra as cotas, pois o necessário é melhorar a escola básica", Bárbara vai discutir o que são cotas raciais, por que elas existem, qual a finalidade e por que são tão importantes para o Brasil. Ela também abordará a necessidade de políticas públicas de permanência dentro desse espaço acadêmico, pois não se trata apenas da entrada, mas dos meios que contribuem para que uma pessoa que ingressa pelo sistema de cotas possa permanecer. Isso é fundamental, uma vez que esses espaços tendem a excluir e não são inclusivos.

Portanto, na finalização do seu livro, na parte “Como ser um educador antirracista”, que retoma o título do livro, a autora vai apresentar caminhos que os educadores podem seguir. Bárbara vai concluir a escrita desse  maravilhoso livro, que coincidentemente estou terminando no mesmo dia, 15 de Outubro, Dia dos Professores e das Professoras. A última mensagem do livro foi uma das mais especiais para mim, como estudante e futuro professor. Como Bárbara já diz em seu livro, sejamos doadores de memórias e que
(...) possamos assumir com afeto o compromisso de sermos “doadores de memórias” que socializam os conhecimentos sistemáticos historicamente desenvolvidos pelo coletivo para as novas gerações, visando a formação humana desses sujeitos, mas que compreendem de maneira fundamental o papel crucial da nossa profissão na construção de uma sociedade mais justa igualitária. (Carine, 2023, p. 149).     

Caro leitor, este livro é uma obra das divindades, uma escrita muito agradável de ler e que você consegue terminar em um dia só. No entanto, quero dizer e pedir que não cometa o ato de lê-lo em um dia só, principalmente se você está no início do seu aprendizado sobre questões raciais, como eu. Este livro aborda muitos temas, e quando digo isso, é porque são muitos mesmo. Parece que a autora, Bárbara, estava bem eufórica quando estava escrevendo, já que ela despejou uma grande quantidade de informações valiosas de questionamentos ou reflexão. É necessário um pouco de calma para lê-lo.

Bárbara foi bem objetiva no que queria transmitir, sem enrolações, o que me deixa extremamente feliz quando um autor faz isso. A nota que eu dou para este livro é 5/5, e informo que ele entrou para a minha lista dos melhores livros da vida, que recomendo a todos. Além disso, ele serve como um ótimo presente, caso você tenha dúvidas sobre o que dar para seu amigo ou amiga.


Ainda quero dizer que conheci Bárbara Carine no Instagram de uma forma bem aleatória. Seu posicionamento, sua forma de falar e, agora, sua escrita me encantaram muito. Ainda estou no início de entendimento desse mundo, buscando constantemente aprimorar meu conhecimento sobre questões raciais e começando a questionar e compreender muitas coisas. 

Tive uma oportunidade incrível de conhecer a Bárbara pessoalmente. Ela foi a primeira escritora que admiro muito a encontrar pessoalmente, e esse momento foi gratificante e maravilhoso. Enquanto ela autografava o meu livro, fiquei emocionado e com uma vontade enorme de chorar. Bem, não sei o motivo, e espero que ela não tenha percebido isso no dia ksksksks

Espero ouvir a opiniões de vocês também para fazer troca de informações.


OBS: Quero deixar claro que esse tipo de escrita não segue um padrão de uma resenha acadêmica. Escrevo com o objetivo de, no futuro, ler isso e verificar o quanto a minha escrita evoluiu. Além disso, escrevo para que mais pessoas tenham a oportunidade de conhecer esses livros. Quando houver dúvidas entre lê-los ou não lê-los, espero que minha resenha possa ajudar.

Currículo Lattes: por onde começar?

  Ao ingressar na universidade, muitos estudantes se deparam com termos que ainda parecem distantes da realidade acadêmica, como iniciação c...